Ecoturismo

Observação de baleias-francas por terra permite contato com população do litoral Sul de SC

Observação de baleias-francas por terra permite contato com população do litoral Sul de SC

Entre idas e vindas, o turismo embarcado de baleias-francas está interrompido em Santa Catarina há quase cinco anos. Coincidentemente em 2014, quando a decisão judicial pela suspensão não apresentava perspectiva de ser revertida, surgia uma alternativa aos turistas atraídos pelos mamíferos gigantes do mar, que se aproximam do litoral Sul do Estado durante o inverno para reproduzir e amamentar os filhotes nem tão pequenos assim. De base comunitária e com o apoio da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural (Epagri) e de prefeituras da região, ganha importância o turismo de observação de baleias por terra (TobTerra), que nesta temporada entra em sua terceira edição com seis roteiros planejados até o final de setembro — o pico da presença dos animais na costa, desde o Sul da Ilha de Santa Catarina até o litoral Norte do Rio Grande do Sul.

A programação proposta por 15 condutores ambientais formados pelo Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) extrapola as trilhas ecológicas, que recortam as baías de Garopaba, Imbituba e Paulo Lopes. Enxergar as baleias a partir dos melhores miradouros, como no alto da pedra que divide a praia do Porto Novo e a praia do Luz, acaba tornando-se secundário frente à diversidade dos passeios. Ao longo de um dia inteiro, geralmente das 8h às 16h, as expedições são pensadas para privilegiar os personagens e as histórias que compõem a região denominada de Costa Catarina.

— A gente tenta conciliar a cultura local com as maravilhas naturais que a gente tem aqui, a possibilidade observar as baleias por terra, além dos artesanatos locais. O que a gente quer mostrar é que existe um povo que vive nesse local e que ele é tão atrativo ou muito mais do que as belezas. A ideia é conhecer as pessoas daqui e as histórias delas, porque a partir do momento que se conhece isso, a gente começa a respeitar e valorizar mais — defende a condutora Claudete Medeiros.

A estimativa dos próprios organizadores é de que 240 turistas já tenham participado dos roteiros eco-culturais.

Da caça à preservação

O conhecimento repassado pelos guias locais, como Maria Aparecida Ferreira, é capaz de transportar os visitantes ao passado, como na época da ‘farinhada’, quando os engenhos ainda eram utilizados em larga escala. Ao mesmo tempo, leva-os a um futuro nem tão distante onde a preservação da natureza se impõe como desafio.

— É claro que os turistas podem ver as baleias e fazer as trilhas por conta própria, apesar de não haver tanta sinalização, mas visitar a região a partir da vivência de quem é daqui tem um diferencial, porque vai além das paisagens. Ele [o turista] conhece como que se vivia nesse lugar, como se passava por esses caminhos e como se comportavam por aqui. E o quanto tudo isso já estava ligado ao cuidado ambiental, que nós devemos aumentar hoje — conta a integrante do Coletivo TaiáTerra e também do conselho da Área de Proteção Ambiental da Baleia-Franca, vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

A consciência acerca do meio ambiente, por sua vez, foi o que fez com que os animais parassem de ser caçados no Estado, em 1973. A estimativa do projeto Baleia-Franca, responsável pela contagem dos mamíferos no litoral, é de que 15 baleias estejam no mar catarinense até o momento. O número já é quase a metade do total registrado na temporada de 2016, quando houve 36 avistamentos — o menor índice desde 2001.

— Essa flutuação no número de baleias está relacionada à disponibilidade de alimentos. Mas a gente não tem essa correlação para esse ano ainda, porque a análise é feita depois da temporada. A gente tem uma expectativa de que, depois dessa diminuição, as baleias voltem a se recuperar e se reproduzir normalmente. Tudo indica que esta pode ser uma temporada normal, ou seja, próximo de 100 baleias na região — projeta a diretora de pesquisa da iniciativa, Karina Groch.

Apesar do vento Nordeste que soprava de maneira forte, uma baleia-franca acompanhada de um filhote apareceu, para alegria dos participantesFoto: Marco Favero / Agencia RBS

Personagens locais

Visitar ranchos de pescadores, alambiques de cachaça artesanal, engenhos de farinha e açúcar, além de comunidades quilombolas e de agricultura familiar são algumas das opções disponíveis entre o avistamento das baleias e, eventualmente, seus filhotes. Ao todo, são 30 destinos mapeados pelo projeto Desenvolvimento Territorial Sustentável com Identidade Cultural, da Epagri, que estão organizados dentro da Associação de Desenvolvimento Territorial Costa Catarina, onde os animais são percebidos. Nessas localidades, as pessoas, o modo de viver e de trabalhar, suas histórias e seus sonhos são igualmente protagonistas.

Seu Anastácio Silveira, 86, é um dos representantes das comunidades locais. Mediante agendamento prévio, o senhor nativo de Imbituba abre as portas do local onde armazena as redes e as canoas que ainda utiliza na pesca para conversar com os turistas. Calmamente, ele responde a todo o tipo de dúvidas. Perguntas relacionadas às baleias-francas, animais que o senhor de cabelos brancos garante já ter visto de muito perto em alto mar, e à melhor forma de visualizá-las raramente faltam nesses encontros.

— Sou contra o turismo embarcado. Porque é claro que prejudica elas, com o barulho, por exemplo. Nessa região, há vários lugares onde é possível ver as baleias por terra e de muito perto. Mas tenho a impressão de que elas vêm cada vez menos, porque a pesca da anchova tem sido mais cedo, e isso afasta elas — aposta Silveira, que também se apresenta como um pequeno agricultor.

A turista Laira Ramos foi uma das visitantes que parou para ouvi-lo atentamente. Saiu encantada com a sabedoria do ancião e, principalmente, com o projeto, que oportuniza esse tipo de contato inspirado em outra iniciativa catarinense. Assim como na Acolhida na Colônia, o turismo de observação de baleias por terra, propicia a troca de conhecimento entre a cultura de quem vive no litoral Sul do Estado e de quem o visita, além de resgatar a autoestima de quem está fora dos centros urbanos.

— Estudo turismo e já li muito sobre o turismo de base comunitária. É muito bom saber que está acontecendo na prática — disse na roda aberta para a conversa durante o passeio.

Fonte: DC

radiofloripa

julho 30th, 2017

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